terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Cordeiro de Deus

É típico do Evangelho de São João que seja atribuída a São João Batista a primeira afirmação sobre o sacrifício do Cristo. Segundo o Apóstolo, o Precursor teria proclamado, na primeira aparição de Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo!” (Ev. segundo São João 1:29).

O Batista havia predito a chegada de alguém que vinha após ele, mas era antes dele, porque o precedia (em relevância): “Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro que eu” (Idem, 1:15; 30). É este mesmo João Batista que testemunha ter visto “... o Espírito descer do céu como uma pomba e permanece sobre Ele” (Ibidem, 1:32). Eis o porquê de afirmar também já reconhecer Jesus por seus sinais, mesmo antes de ele conhecê-lo pessoalmente – “E eu vi e tenho testificado que Este é o Filho de Deus” (Ibidem, 1:34).

A revelação destas profecias ocorre, evidentemente, quando se é realizado o batismo de nosso Senhor. É neste momento, de acordo com os Evangelhos sinóticos, que o Espírito Santo vem sobre Jesus, enquanto a voz do céu declara-O “Filho amado de Deus” (São Mateus 3:16-17; São Marcos 1:10-11, e; São Lucas 3:22). É este o cenário em que o Batista chama Jesus de “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.
"Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo!"

 A metáfora – Para expor esta identidade do Cristo – o Cordeiro de Deus – São João Batista vale-se de uma metáfora que combina a evocação de três imagens bíblicas. Podemos elencá-las em ordem.

Em primeiro lugar, ao fato do Cordeiro de Deus ser invocado para levar embora o “pecado”. Certamente o Precursor faz aqui uma referência à prática judaica descrita no Antigo Testamento – chamado chatta'ah – que significa literalmente “oferta pelo pecado”. A finalidade deste sacrifício era curar e reparar o estado espiritual degradado, maculado — o eu interior, o nephesh — daquele que ofendeu a Deus de alguma maneira relativamente grave. O “pecado” (chet') a ser expiado no contexto deste sacrifício não era tanto o ato pecaminoso em si, mas o desregramento, a falta de ponderança e observância que resultaram da sua falha moral, física ou social. O chatta'ah, portanto, não é uma penitência exigida por Deus, mas antes uma tentativa de retificar, purificar e consagrar o ser humano, religando-o com Deus.

É significativo, portanto, que o Cordeiro de Deus é chamado para levar embora o “pecado do mundo”, não os pecados do homem. São João Batista tem em mente, assim, a percepção de um mundo, uma humanidade caída, não das falhas individuais das pessoas.

Considerando que um carneiro, um novilho, foi vítima prescrita no chatta'ah do Antigo Testamento, Jesus é identificado como “o Cordeiro que tira o pecado do mundo”. João Batista não inventou essa mudança na imagem. Veio de outra fonte bíblica: o livro de Isaías.

É neste texto que aparece a indicação que aparecerá a descrição do servo de Deus sofredor: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro, foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca” (Isaías 53:7). São João Evangelista segue igualmente este caminho ao identificar Jesus como o servo sofredor, declarando que o Pai “enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele” (John 03:17).

Assim, quando João diz que o Filho do Homem "deve ser elevado" (dei hypsothenai) (03:14; cf. 08:28; 12:32), ele está mais uma vez invocando a profecia de Isaías que o servo do Senhor "será levantado acima" (hypsothesetai, 52:13 Isaías 70).
O Cordeiro imolado. Cristo faz-se oferenda para salvar a humanidade de seus pecados.
É instrutivo observar que em Isaías 53:4-7, onde o servo (neste caso o próprio Cristo) é comparado à oferenda, a vítima imolada é identificada como um cordeiro, não pelo pecado — como na Torá — um novilho, mas o próprio Filho de Deus pelo mundo. Este texto de Isaías é a lente através da qual São João Apóstolo e os outros autores do Novo Testamento lêem a Torá (Êxodo 29, Levítico 4; Números 28), quando eles tratam o sacrifício de Jesus como uma oferta pelo pecado.

Em terceiro lugar, a referência de João Batista a Jesus como “o Cordeiro de Deus” também evoca a imagem do cordeiro da Páscoa, pois os holocaustos neste tempo claramente fazem alusão não à libertação dos pecados individuais, conforme afirmado anteriormente, mas especialmente à redenção de Israel da escravidão do Egito idólatra. A oferta de Páscoa era, de fato, o único sacrifício de Livramento.

As prescrições que regem este sacrifício, que melhor expressa, indiscutivelmente, a substância da fé hebraica, foram dadas a Israel antes da chegada do povo no Sinai. Na verdade, elas foram dadas mesmo antes do Egito ao povo escolhido! (Cf. Êxodo 12:43-13:16)

Disse o Precursor: "Eu vos batizo com água para arrependimento; porém virá Aquele que vos batizará com o fogo do Espírito Santo"
O significado teológico deste sacrifício particular levou os cristãos a interpretar o Cordeiro Pascal como um tipo ou figura de Cristo, que foi morto para arrancar a raça humana da escravidão demoníaca. Por esta razão, São João, o Evangelista, ao explicar por que os soldados não quebraram as pernas de Jesus crucificado, cita um verso originalmente pertinente para os cordeiros imolados na Páscoa: “Porque isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: Nenhum dos seus ossos será quebrado. E novamente diz outra escritura: Verão aquele que transpassaram” (Ev. segundo São João, 19: 36-37). O Apóstolo tem o cuidado, inclusive, de identificar a ocasião quando este verdadeiro Cordeiro pascal foi preparado para o sacrifício: “E era a preparação para a Páscoa, e quase à hora sexta; e disse aos judeus: Eis aqui o vosso Rei” (Idem, 19: 14).

Versão em português do original escrito por  P. Patrick Henry Reardon
Ponderações de pastorais - 28 / 12 / 2015